Os marginais da Marginal


O hotel fica numa espécie de Restelo aqui do burgo. Há embaixadas por todo o lado, casas que ocupam lotes entre 2 avenidas, seguranças em cada porta. 

À saída pergunto aos seguranças do hotel qual o melhor caminho para a Av Marginal. Desconfio que um neurónio do senhor desfaleceu antes de a dopamina o reanimar e ele, de dedo em riste, me indicar o caminho. Não faz comentários. Não precisa. 

Levo a mochila equipada com o equilíbrio precário entre o “assumir a perda com dignidade em caso de assalto” e o “se me vir enrascada isto dá jeito” e sigo, em modo risco calculado. 

Destino: praia. Objectivo: molhar os pés no Índico. Ou não me chamasse eu M. Pelos mesmos motivos, assumo à partida que me vou perder e obrigo-me à mental note de uma referência geográfica. 

A escolha do caminho é fácil: sempre a descer. Sem phones, para não ter nada de valor à mostra e ir ouvindo o que me rodeia. Boa aposta, até porque olho sempre para a esquerda antes de atravessar (os carros aqui circulam ao contrário) e as passadeiras devem ser homenagem nacional às zebras, porque parar, ninguém pára. 

A praia em si é um desgosto. Cheira a esgoto, a maré está baixa, as ilhas de lodo são o mote pragmático para deixar o romantismo Indico para melhores dias e há lixo, lixo por todo o lado. Na teimosia de pelo menos sentir o cheiro a maresia, enveredo pelo pontão. Vou-me cruzando com pessoas diferentes, de diferentes idades, mas há uma coisa em comum: todas rezam em voz alta. Sem perceber se estou na Ponta das Preces ou num ponto de encontro de loucos, faço os meus 2 pedidos mentais de sempre ao divino (nunca se sabe) e sigo pela marginal. 

Má aposta. Há carros de casório a cruzar a estrada, ciclistas apetrechados e há quem mostre que a moda do running chegou mesmo a todo lado, mas passam todos mais ou menos literalmente a correr. O que me torna na única mulher sozinha num troço sem fim à vista, aqui e ali interrompido por locais que me vão lançando piropos. É uma zona pobre, claramente mal frequentada. A evitar no regresso, por isso sigo em frente em direcção ao que me parece ser o centro. 

Estou pelas minhas estimativas a 4 Km do hotel e sei que há 2 rapazes no meu encalce à demasiado tempo para ser só coincidencia. Se voltar para trás não era uma opção válida, agora então… Vou controlando a distância de segurança, acelero o passo, deixo finalmente que me ultrapassem numa zona mais povoada. Moça, moça, tenta um deles (o manco) e não respondo, enquanto amaldiçoo a memória por já não saber o alfabeto em linguagem gestual, porque já que estou a fazer de surda, sempre assumia o papel com mais convicção…. Lá seguem caminho e eu, mais disponível para a paisagem, penso que provavelmente estava a fazer filmes. 

Tenho fome, noto, agradecida pela esplanada providencial. Peço uma tosta de queijo (usam cheddar, descubro) e pouco tempo depois sou abordada por um rapaz alto, bem parecido. “Moça, tem qui tê cuidado, essis dóis aí vinham atrás de si para sácá sua mála! Eu sô polícia e tenho-lhis tentado apanhá”. Olho para o outro lado do muro e lá vejo os meus 2 stalkers, encostados. São 2 miúdos. Foram revistados ali mesmo e eu opto por desligar da cena porque no fundo acho que lhes devia era pagar uma tosta, mas é arriscar. Fico a ler um artigo, até alguém passar, perdido de riso, a dizer “mas como é que eles conseguiram meter isto no saco”, com a mercadoria roubada na mão: um peixe com uns 3 Kg…

Agradecidas as dicas da rapariga a quem pedi a tosta, recuso delicadamente a oferta de boleia para o hotel e afinal lá volto para trás porque em frente há uma zona em que “não convém passar uma mulher sozinha”, mas desta vez troco o passeio à beira mar pelas ruas Restelo like logo que possível. O que obviamente me faz desorientar um pouco (mais) em termos geográficos, pelo que confiro coordenadas com um casal com ar de portugueses com que me cruzo. “Ah, era você que andava há pouco lá em baixo, eu tentei fazer-lhe sinal, sabe que vinham uns rapazes atrás de si para a assaltar”. 

Aterrei há umas horas e já deixo uma boa impressão nos residentes… 

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