From Greece (III), with love

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Percorro a zona exterior do barco à procura de um lugar soalheiro. Fico ali acompanhada do Cadilhe, a ler-me nas suas palavras. É curioso. Será que no fundo todos sentimos o mesmo? Ou faremos ambos parte de uma qualquer tribo de gente que um dia se vê arrebatada por uma vontade maior de içar as âncoras da normalidade e navegar pela vida e pelo mundo ao mesmo tempo?

Volto à cabine onde deixei a mala apenas tempo suficiente para garantir que não existem a bordo más intenções que a levem para terra, agora que atracamos no porto de Naxos. Tenho a pele a cheirar a sol e sinto-lhe a aspereza de uma camada de sal que se depositou em mim com a suavidade do invisível. Penso no conteúdo da mala e se o que está no seu interior compensa pagar o preço de roubar ao corpo o deleite do convés. Tenho na mochila o passaporte, cartões de
crédito e débito, telemóvel e chaves de casa. Tudo o resto é dispensável à sobrevivência. É esse o preço de viajar sem amarras: percebemos que, tal como o conteúdo da mala, também nós somos dispensáveis ao mundo; só os poucos que nos levam na mochila sentem a leveza da nossa ausência.

Como noutras viagens, sinto que não quero voltar, mas sei que o farei – e esse é um sentimento recente. Durante muito tempo pensei sempre na possibilidade de uma qualquer cidade provisória se tornar temporária. Sonhei em voz alta vidas a acontecer em Paris (e continuo), Viena,Barcelona e Berlim. Deixei uma parte de mim em São Tomé e prometi voltar pela terra, porque o que lá deixei não me faz falta.

Depois comecei a dedicar os meus dias a algo que é tão maior do que eu como o mundo em si.

***

I walk on the outer part of the boat, searching for a sunny spot. I lay there with Cadilhe*, reading myself in his words. It’s curious. Do we all feel the same deep inside? Or do we both belong to some sort of tribe of people that one day finds themselves enraptured by a greater willingness to hoist the anchor and sail through life and world at once?

I return to the cabin where I left my suitcase only long enough to assure there are no bad intentions on board that can rescue it to land now we stop briefly at Naxos’ port. My skin exhales a smell of sun and and I feel in it the roughness of a salty layer that undressed me with the smoothness of the invisible. I think of the suitcase’s content and if it’s worth to pay the price of stealing my body
from the sunny delightness. I have my passport, credit cards, cell phone and house keys in my backpack. Everything else is dismissible. That’s the price of traveling with no attachments: we realize that, just has the suitcase content, we are dismissible to the world; just the few who carry us in their backpack will feel the lightness of our absence.

Like in all of my past trips, I feel like not returning. But I know I will, and that’s a recent feeling. For a long time I used to entertain the possibility of an instant city becoming a temporary harbor. I dreamed in loud voice of life’s happening in Paris (I still do…), Viena, Barcelona and Berlin. I left part of me in São Tomé and I made a promise to return for the land, for what I left there, I do not miss.

But then I started to devote my days to something that’s as bigger than me than the world itself.

* Portuguese travel writer

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